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 Texto 9 

Todo sentimento que uma câmera puder capturar

W. Eugene Smith não era um fotógrafo trivial. Sua trajetória tampouco poderia ser trivial. Com a mente dominada pelos dramas humanos, não aceitava meias medidas em sua forma de fazer fotografia. Contratado para ensaios jornalísticos pela revista Life e pela agência Magnum, era comum que triplicasse o tempo de captura das fotos, “estourasse” os orçamentos e mantivesse uma conflituosa relação com os editores que, segundo ele, descaracterizavam seu trabalho. As imagens de seus ensaios têm uma “liga”, um eixo, uma mensagem única. Eugene Smith é o Michelângelo do ensaio fotográfico. Seu trabalho é um divisor na história de fotografia.

Nascido em 1918, se interessou por fotografia desde a idade escolar. Já adulto, fotografou a II Guerra Mundial no Pacífico, capturando emoções e dramas por toda parte. Ferido na guerra, voltou aos EUA e “decolou” uma carreira prolífica e turbulenta. Um texto de John Berger publicado na revista Zum destaca: “Ele via a arte como um meio de redenção. A música, as palavras eram, para ele, acessórios ao drama da busca da bondade. A fotografia constituía sua forma de procurar isso, sua inquirição”.

Seus ensaios fotográficos tinham um sólido senso de propósito. Não havia elemento solto nem fotografia “avulsa”. Smith se orgulhava de nunca ter feito “uma imagem, boa ou ruim, sem pagar por ela um considerável custo emocional”. Entre outras tantas frases, a mais famosa é “Qual o sentido de uma bela profundidade de campo se não houver uma bela profundidade de sentimento?”. No original em inglês, o impacto de sua frase é acentuado pelas palavras que se antagonizam: “depth of field”  e “depth of feeling”.

Aqui temos uma amostra da sua fotografia “profundamente humana” por meio de uma seleção de um ensaio jornalístico denominado “County Doctor” para a revista Life em 1948. Eugene Smith foi contratado para registrar a vida de um médico do interior dos EUA (Kremmling, Colorado). O Dr. Ernest Ceriani havia se formado em Chicago, mas optou por viver no interior. Ele era o único médico em uma área de 400 milhas quadradas, habitada por cerca de 2.000 pessoas. Eugene Smith passou 23 dias produzindo imagens da rotina do médico.

Este estudo analisa alguns aspectos da técnica e das escolhas do fotógrafo com o fim de enfatizar as sensações que ele deseja transmitir. 


A Fotografia nº 1 inaugura o ensaio e funciona como uma sinopse. Só há um personagem, um herói (sensação acentuada pela posição da câmera junto ao solo e pela centralidade do motivo, pela ausência de outras pessoas e pelo semblante preocupado). A vegetação e a cerca de madeira contextualizam o ambiente, mas o motivo fracamente iluminado e o céu carregado dão o tom da realidade vivida pelo Dr. Ceriani. Não tem dia fácil.

Fotografia nº 1 – revista Life – 1948

Na Fotografia nº 2, temos o Dr. Ceriani aplicando uma injeção em uma turista de 60 anos, que teve uma leve disfunção cardíaca. O fotógrafo consegue criar uma vinheta natural com as sombras geradas pela capota e pela cor do estofamento dos bancos do carro. As faces iluminadas da paciente e do médico contrastam com o rosto mal iluminado e das mãos tensas da criança, tradução de suas preocupação e insegurança.

Fotografia nº 2 – revista Life – 1948

Teatro e melodrama infantis? Esse é o tema do paciente na Fotografia nº3. A luz irregular privilegia o rosto do menino angustiado, onde o fotógrafo escolheu focalizar. O rosto do médico na sombra e fora de foco, mas sem traços fortes, transmite tranquilidade, criando o perfeito contraste.

Fotografia nº 3 – revista Life – 1948

Aqui, o drama verdadeiro: a Fotografia nº 4 mostra o Dr. Ceriani, ajudado por um grupo de enfermeiras, examinando uma menina de dois anos. O posicionamento das pessoas nos cantos opostos do enquadramento, o corte dos corpos pelas linhas limites (interferindo sobre o corpo da mãe e sobre parte das enfermeiras), a sugestão da presença da paciente que não é mostrada, o desalinhamento do horizonte e o alto contraste tonal enfatizam a gravidade da situação.

Fotografia nº 4 – revista Life – 1948

O médico ajuda um fazendeiro a levar seu filho para o hospital na Fotografia nº 5. O jovem deslocou o ombro ao ser jogado de um cavalo em um rodeio local. A cena é dividida em duas partes pelo corpo do homem em primeiro plano, mas fora de foco. À esquerda, o “médico-maqueiro” com blusa lisa e gravata não hesita em ajudar o novo paciente; à direita os outros habitantes locais, que passam indiferentes caminhando em sentido oposto.

Fotografia nº 5 – revista Life – 1948

A fotografia nº 6 pode ser vista como uma outra sinopse do ensaio. Tratando de uma gangrena em um paciente de 85 anos, Ceriani teve que interná-lo para melhorar sua condição visando à cirurgia. Quando Mitchell estava melhor, o médico carregou-o delicadamente da enfermaria até a sala de cirurgia no outro andar. Não havia elevador. O alto contraste tonal, o posicionamento descentralizado dos motivos, a direção diagonal do corpo do paciente e as duras sombras projetadas na parede enfatizam a tensão.

Fotografia nº 6 – revista Life – 1948

Luz dura dentro do enquadramento, fortes linhas, sombras e olhos escurecidos pelo posicionamento da luz determinam o resultado da Fotografia nº 7. Tendo previsto que um paciente não resistiria até o dia seguinte, o Dr. Ceriani chama um sacerdote para ministrar os sacramentos. A cadeira vazia seria a “senha” do vazio que aquela família iria experimentar? A cena me lembra um quadro de Van Gogh (Os Comedores de Batata) no qual um lampião também está inserido no enquadramento e cria linhas fortes nos rostos, olhos escurecidos e intenso contraste tonal.

Fotografia nº 7 – revista Life – 1948

Depois de uma cirurgia que durou até às 2h da madrugada, o Dr. Ceriani se apoia, exausto, na bancada da copa do hospital. O “desalinhamento” da sua coluna inclinada para a esquerda e a posição do gorro destacam seu desgaste, intensificado pela inclinação das paredes na Fotografia nº 8. Tudo meio torto resume o grau de exigência e a carga de trabalho. O contexto da copa do hospital e os utensílios domésticos sugerem que essa é uma cena comum de um médico no interior.

Fotografia nº 8 – revista Life – 1948

A Fotografia nº 9 destaca as linhas diagonais, a conexão entre o médico e seu paciente a partir de um ponto de vista inferior, aumentando a estatura física e simbólica do Dr. Ceriani. A luz cria uma bela vinheta na parede, auxiliando o fotógrafo a separar os motivos do fundo. Os triângulos formados pelos braços transmitem dinamismo e energia. Os olhares apontam para um mesmo ponto, aumentando o senso de dedicação e atenção.

Fotografia nº 9 – revista Life – 1948

Contato visual direto e atenção plena são os temas que dominam a Fotografia nº 10. A paciente especialmente trajada para a consulta está emoldurada pela janela destacando a hierarquia entre os motivos. As expressões faciais e o posicionamento dos braços visíveis (todos em direções paralelas) reforçam a conexão entre o atencioso médico e sua paciente.

Fotografia nº 10 – revista Life – 1948

A Fotografia nº 11 tem o mérito de mostrar os auxiliares, o ambiente físico e o mobiliário à em instantes antes de uma cirurgia. O(a) paciente, no centro, atrai os olhares dos profissionais trajados com zelo e o ambiente aparece arrumado e limpo. Há uma certa dose de atenção digna e respeitosa em relação ao(à) paciente, a despeito do isolamento geográfico. 

Fotografia nº 11 – não publicada na edição da Life

A Fotografia nº 12 encerra este estudo e “dialoga” com a Fotografia nº 1. A casa e o carro estão cortados pelos limites do enquadramento. No centro, o personagem e “o mundão” que o cerca. O médico solitário está presente, sensação reforçada pela posição alta da câmera. Ele enfrenta a natureza e segue para exercer seu ofício. 

Fotografia nº 12 – não publicada na edição da Life

Em 1971, W. Eugene Smith fez uma imagem que reúne todas as virtudes de sua arte. Trata-se da foto de Tomoko Uemura, que na verdade é a transposição do drama da Pietà renascentista para a realidade de uma mãe que cuida, incansavelmente, de sua filha vitimada pela contaminação de mercúrio no vilarejo japonês de Minamata. Impossível não se sensibilizar. 

 

Fontes de imagens e de pesquisa:

https://photoquotes.com/author/w--eugene-smith
@digitalphotographycourses
https://revistazum.com.br
https://www.life.com/history/w-eugene-smiths-landmark-photo-essay-country-doctor/

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