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 Texto 15 

A arte do retrato numa série de TV

Mais do que uma resenha sobre o roteiro realista, este estudo se concentrará na técnica de criar retratos. Alguém poderia dizer que um filme ou uma série de TV não se prestam para fazer um estudo de como retratar pessoas. Entretanto, uma vez que a história é contada em oito episódios, escapando da intensidade de um filme de 80-100 minutos, o diretor nos presenteia com uma bela coleção de “retratos levemente animados”, mas elegantemente compostos. Neste segundo estudo sobre a série Ripley (Netflix 2024), vamos passear pelas técnicas de criar imagens que contam uma parte da história e revelam o estado mental do personagem.


Robert Elswit, o diretor de fotografia, defende um estilo clássico de compor e iluminar cenas. Esse estilo clássico é alcançado ao combinar um conjunto de princípios: expressar um realismo, filmar — sempre que possível — em locações em vez de estúdio, aproveitar a luz ambiente complementando-a com a luz artificial, preferir um mesmo tipo de lente (35mm no formato 2.4/1) e incorporar cenas bem “abertas”, permitindo a invasão de “flares” quando possível. Ripley foi o segundo trabalho relevante de Elswit inteiramente editado e exibido em preto em branco, tendo ele se destacado pelo filme Boa Noite e Boa Sorte de 2005.


A imagem nº 1 traz o primeiro encontro de dois personagens enigmáticos. No primeiro plano, Tom Ripley, interpretado pelo irlandês Andrew Scott, sentado junto ao balcão no fundo de um bar, aparece iluminado da direita para a esquerda, tendo a parte do rosto mais próxima da câmera na sombra. Seus olhos e nariz ultrapassam a borda do rosto, o que diminui o grau de harmonia do retrato. Uma luz de recorte alcança o seu cabelo a partir do canto esquerdo. O outro personagem, um detetive particular “sombrio”, está iluminado pelas duas laterais, escondendo a maior parte do rosto que o possa identificar.

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Imagem nº 1

O duvidoso estelionatário aparece com o rosto marcadamente dividido entre luz e sombra em uma espécie de entrevista de emprego na imagem nº 2. Uma luz forte, dura, faz a separação entre as faces esquerda e direita. Essa fonte de luz principal está posicionada na altura da cabeça, uma vez que não se percebe nenhuma sombra diagonal no pescoço do modelo. Parece haver uma pequena compensação ou rebatimento de luz vinda da parte esquerda da cena para ajudar a marcar os contornos da sua cabeça. O fundo é parcialmente iluminado de forma a ajudar a separá-lo do modelo. Do alto à esquerda do quadro, uma fonte de luz concentrada de média intensidade, marca o contorno do modelo.  

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Imagem nº 2

Um retrato renascentista em um filme “noir” é o que aparece na imagem nº 3! A caixa do banco é iluminada por uma grande fonte posicionada no alto ligeiramente à sua esquerda (dada a sombra quase vertical criada no seu pescoço). Há uma fonte mais fraca ou rebatedor à sua direita que suaviza as sombras e contornos do seu rosto. Há uma terceira fonte forte e pequena que, do alto e um pouco à sua direita, cria um contorno nítido no cabelo. A moldura do balcão cria um “sub-framing” perfeito, separando a modelo do cliente que está de costas.

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Imagem nº 3

Na imagem nº 4, temos o personagem-título em uma postura relaxada. Neste momento da trama, ele se apresenta como sua vítima, um ingênuo “bon-vivant”, e transparece segurança e triunfo. Ripley é iluminado por uma fonte pequena e forte (“luz dura”, no jargão), revelada por alguns sulcos do rosto e pelo contorno marcado na sua face direita. Essa fonte está no mesmo nível da cabeça, dada a ausência de sombras na maior parte do pescoço. Sua roupa ajuda a separá-lo do fundo ao tempo em que marca uma nova vida para si, se comparada com as roupas da imagem nº 2.

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Imagem nº 4

Um “antirretrato”! A imagem nº 5 traz um “não-retrato”. No contexto, Ripley, depois de cometer um crime, aparece iluminado como um ser sinistro, sem vida... desumano. Quem gostaria de ser retratado em tais circunstâncias? Lutadores, esportistas, exploradores? Cabe mais para fotografia documental, não?

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Imagem nº 5

Mostrar o personagem como enigmático e multifacetado é o objetivo da imagem nº 6. Três luzes iluminam o personagem: duas na frente (decifradas pelo reflexo nos olhos) e uma por trás. A luz principal vem do alto, da esquerda para a direita da cena, e cria uma sombra diagonal no pescoço e uma linha nítida no dorso do nariz. Uma segunda luz frontal, é gerada por uma fonte pequena e serve para preencher parcialmente as sombras da face esquerda do personagem. Uma terceira luz, atinge o modelo por trás, da direita para a esquerda do enquadramento, atuando como luz de contorno. A parte mais escura do rosto está mais próxima do observador criando um ar de suspense. O personagem quer esconder o rosto.

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Imagem nº 6

A mesma técnica de deixar a parte mais escura próxima do observador é usada na imagem nº 7, mas o contexto e diversos elementos geram um outro efeito. A atriz Dakota Fanning, que interpreta Marge, está na sua simplória casa e é iluminada pela fórmula clássica de Rembrandt. A fonte de luz está no alto, e atinge o rosto em uma diagonal descendente, criando um triângulo sob o olho esquerdo da modelo. A fonte de luz parece ser média ou grande em face da difusão da sombra gerada no pescoço. Uma outra luz, talvez natural, vinda da direção da janela cria um belo contorno no cabelo.

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Imagem nº 7

A imagem nº 8 é uma aula do uso de uma única luz. Um deslumbrante retrato clássico que repete a ideia de Rembrandt, mas a altera: o modificador de luz é maior do que o usado na imagem nº 7 e está posicionado em um nível mais baixo e mais frontal em relação à personagem, o que acaba gerando uma sombra menor na face esquerda e uma sombra pequena e difusa da base do nariz. O fundo levemente iluminado e uma estreita profundidade de campo geram um perfeito isolamento e destaque do modelo.

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Imagem nº 8

Tensão! A imagem nº 9 tem a mesma “engenharia” de luz da imagem nº 8, alterando para uma fonte menor, isto é, mais “dura”, e o ângulo de incidência (mais alinhado com os ombros) para gerar sombras mais definidas no nariz e pescoço, contrastes, olheiras e vincos no rosto da personagem angustiada pelo desaparecimento de seu noivo.

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Imagem nº 9

Por fim, a luz natural. Na imagem nº 10 a luz procedente da iluminada praça em Veneza ilumina o ator John Malkovich de forma lateral. O chapéu e a roupa absorvem a luz ajudam a aumentar o contraste entre as duas faces de seu suspeitíssimo personagem. Como não há luz de contorno, a roupa e o chapéu negros ajudam a separar o motivo em relação ao fundo.

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Imagem nº 10

Fontes de imagens e de pesquisa:

Cinematography Style: Robert Elswit
https://www.youtube.com/watch?v=_OBgyVhQMYU
Ripley - Eye Lights - Cinematography Breakdown
https://www.youtube.com/watch?v=BNEGvne9m6s

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